Aldary Henriques Toledo¹ (1915-1998), carioca, exímio desenhista e habilidoso arquiteto.
Formou-se na Escola Nacional de Belas Artes - ENBA em 1939, no curso que havia sido transformado, poucos anos antes, por Lúcio Costa. Ao mesmo tempo em que cursava arquitetura, ingressou também no curso de pintura e mural da Universidade do Distrito Federal - UDF, no qual Cândido Portinari era professor. Mas este não foi seu primeiro contato com o pintor, tampouco com a arte: desde os 18 anos de idade, Aldary era discípulo de Portinari.
Ao longo dos 59 anos de sua carreira profissional, Aldary se dividiu entre o ofício do arquiteto e do artista. Como arquiteto, aos 28 anos de idade, participou da mais importante exposição sobre a obras arquitetônicas brasileiras, Brazil Builds: Architecture New and Old, 1652-1942, do Museu de Arte Moderna de Nova York. Como artista, foi um incansável trabalhador: não buscou com sua arte fama ou fortuna; muito pelo contrário, sua arte foi precisa e solidária. Além dos inúmeros desenhos que ilustraram os cartões de natal que enviou para seus amigos e/ou que decoraram as paredes de suas casas, Aldary teve seus desenhos ilustrando livros de poesia e capas de discos.
Ainda recém-formado, em 1940, Aldary - junto a Hélio Uchoa, Jorge Machado Moreira, Oscar Niemeyer e Atílio Correa Lima - fez parte do grupo liderado por Carlos Leão no Serviço de Arquitetura da Comissão do Plano Piloto para a Universidade do Brasil. Nove anos mais tarde, assumiu o cargo de Arquiteto-Adjunto para a execução do projeto final, naquele momento liderado por Jorge Moreira, do campus da futura Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ (Ilha do Fundão). Por quase dez anos trabalhou simultaneamente nos escritórios do Instituto dos Aposentados e Pensionistas Bancários - IAPB e do Escritório Técnico da Universidade do Brasil - ETUB, em parceria, respectivamente, com Carlos Leão e Jorge Machado Moreira.
No mesmo período em que entrou no IAPB, projetou importantes obras modernas para a cidade de Cataguases, em Minas Gerais, com destaque para a residência José Pacheco de Medeiros (1943), com paisagismo de Francisco Bolonha (que, naquele momento, era estagiário de Aldary), o Cine Teatro Cataguases (1945), em parceria com Carlos Leão, o Conjunto Residencial para os operários da Companhia Industrial (1945), e o Hotel Cataguases (1945), em parceria com Gilberto Lyra de Lemos (todos tombados pelo Iphan). Juntamente com as obras de seus colegas Oscar Niemeyer e Francisco Bolonha, estes projetos são parte do processo de modernização da cidade que teve início na literatura, com a revista Verde, e no cinema, com a figura de Humberto Mauro. Sua relação com a cidade lhe rendeu outros projetos e uma obra artística: a ilustração do livro de contos eróticos do industrial e poeta Francisco Inácio Peixoto (1981) - que foi, aliás, o responsável pelas encomendas dos projetos arquitetônicos.
Em sua carreira, Aldary Toledo se envolveu por diversas vezes em projetos e propostas urbanísticas de desenvolvimento nacional. Caso, por exemplo, do plano urbano de Barra Mansa, realizado em coautoria com Atílio Correia; e os Centros Petroquímicos Presidente Vargas (1960-1966), em Duque de Caxias, e de Camaçari (1975-1978), ambos para a Petrobrás. Também, teve uma longa carreira de 35 anos no IAPB (1945-1980), chegando ao cargo de chefe da Divisão de Engenharia entre 1957 e 1966.
Junto ao Instituto dos Bancários, Aldary desenvolveu importantes projetos, caso, por exemplo, da Superquadra Sul 109 (1960-1965) em Brasília, no qual contou com a colaboração de Lelé. Sobre este projeto, aqui vale um parêntese com um dado curioso: por se tratar de uma proposta que previa um número menor de edifícios para a superquadra do que aquele estipulado pelo Plano Piloto e, também, por propor uma pequena escola no centro da quadra, foi necessária a aprovação direta de Lúcio Costa. Desenvolveu também projetos bancários para o Banco do Brasil em edifício histórico na cidade de Diamantina MG, em 1964, e uma agência da Caixa Econômica Federal em Teresópolis RJ, em parceria com seu filho, o arquiteto Luiz Carlos Toledo em 1978.
Aldary era uma pessoa conhecida na boemia carioca. Era frequentador assíduo dos bares de Ipanema, onde se encontrava com outros artistas e intelectuais, como Rubem Braga, Carlos Leão, Vinicius de Moraes, Sérgio Rodrigues, José Silveira Sampaio e o casal Tonia Carreiro e Carlos Thire. Destas amizades, frutificaram importantes projetos para sua carreira professional como arquiteto: para o casal Thire, projetou uma casa de praia; para o amigo e cantor Dorival Caymmi, uma casa na Ilha do Governador. Também lhe rendeu frutos para a sua carreira como artista: vizinho ao bar Jangadeiro, onde costumava se encontrar com a distinta patota, ficava o Teatro de Bolso, dirigido por José Silveiro e cuja parede era decorada por um grande mural, desenhado por Aldary, com figuras de bailarinos; e, vizinho ao teatro, ficava a Galeria Oca, onde expôs seus trabalhos como artista. Aldary Toledo, como bem definiu o poeta e amigo Carlos Drummund de Andrade, era autor de desenhos de traços finos e aéreos.
Sobre a importância de Aldary na cena moderna da arquitetura brasileira, Lelé conclui:
Aldary Toledo e, além de um arquiteto da primeira geração de modernistas, um autêntico artista que conviveu com Portinari, tendo sido este seu professor de desenho e pintura. Ao seu círculo de convivência pertenceram Oswald de Andrade, Jorge de Lima, João Cabral de Melo Neto, Lúcio Costa, Atilio Corrêa Lima, Carlos Leão, entre outros. Embora tenha, em 1933, ingressado na Escola Nacional de Belas Artes para cursar artes, optou por arquitetura, após ter assistido as aulas ministradas por Carlos Leão, a quem se referiu como: [...] um homem de uma cultura formidável. Era um sujeito extraordinário. Eu sou arquiteto, hoje em dia, e devo a ele, porque ele e quem me formou. Ele fez minha formação, tudo que sei devo a ele - me deu o conceito de arquitetura.²
¹ Além de dados biográficos, coletados em fontes primárias e secundárias, alguns dos
argumentos presentes neste artigo foram desenvolvidos no seguinte trabalho: MARQUES,
André Felipe R. Aldary Toledo: entre arte e arquitetura. Orientador Abilio Guerra. Tese de
doutorado. São Paulo, Mackenzie, 2018.
² PEIXOTO, Elane Ribeiro. Lele: o arquiteto Joao da Gama Filgueiras Lima. Orientador Júlio Roberto Katinsky. Dissertação de mestrado. São Paulo, FAU USP, 1996, p. 12.
Nota: Esta biografia foi elaborada por André Felipe R. Marques em julho de 2020